quinta-feira, 12 de agosto de 2010

004

Eu estava desconectado ao longo de todo o dia tentando buscar alguma paz interior. Meu e-traficante não havia aparecido. Talvez tivesse ficado doente ou pudesse ter sido preso. Eu voava assim mesmo. Quicava por dentro. Teria escolhido algo para relaxar se ele tivesse vindo ao meu encontro. Havia um som que me levava a desabar de mim. Eu sentia adormecerem as extremidades. Depois um formigamento percorria meus braços e pernas e subia até a nuca. E logo meu crânio se dissolvia para dar chance ao cérebro. E as tartarugas voadoras e os esquimós de cabelo moicano e os elefantes em trajes de gala e os jacarés com bico de pato começavam a dançar e a falar sobre amenidades filosóficas. E eu pensava em Zelda. Fantasiava viver no interior do seu bolso. Um isqueiro que, vez ou outra, acaba tendo atenção ao ser agarrado e acariciado e levado à luz e aos calores da chama. Zelda a me carregar próximo a um dos seios. Eu a roçar o bico. Zelda a me usar para chamuscar a ponta do seu cigarro; ou para extirpar um fio de linha de sobra na calcinha. Um cheiro bom. Zelda me clicando para assar um bolo de laranja. Eu ali para fazer crescer a massa. Eu fermento. Zelda à beira da xícara. Zelda líquida. Café. A água quente por minha conta. Zelda tonta. Tirei a roupa e fui escorregando para debaixo do sonho. Cobri-me de beijos, afagos e carícias até a cabeça. E caí no buraco feito Alice. A campainha tocou por vinte e cinco anos. E eu preso no bolso da camisa xadrez agora dependurada no encosto da cadeira.

Um comentário:

Itamê disse...

Grdcho!!!!
Muiiito bom ... como sempre!!!
Bj bj bj bj bj bj bj bj bj